A China é o principal destino da exportação da carne bovina brasileira e a sobretaxa de 55% imposta pelo país aos volumes que excederem à cota de 1,106 milhão de toneladas a partir de 1º de janeiro de 2026 será difícil de ser compensada rapidamente, mesmo com o forte crescimento das vendas do produto para outros mercados asiáticos neste ano.
Indonésia, Vietnã, Cazaquistão, Macau, por exemplo, têm registrado taxas surpreendentes de crescimento, mas representam menos de 1% do total vendido pelo Brasil ao exterior. De janeiro a novembro, a China respondeu por mais da metade (53,9%) das vendas externas de carne bovina brasileira, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).
Nesse período, foram exportados ao país asiático US$ 8 bilhões em carne bovina fresca, refrigerada ou congelada. O avanço foi de 48,2% em relação a igual período do ano anterior. Já para destinos alternativos do continente asiático como Vietnã e Indonésia, Cazaquistão e Macau, as taxas de crescimento passaram, em alguns casos, de três dígitos no mesmo período.
De janeiro a novembro, as exportações para Cazaquistão cresceram 2.374,80%; para Macau, 644%, para o Vietnã, 565,50% e para a Indonésia, 169,8%, em relação aos mesmos meses de 2024, apontam dados do Mdic. No entanto, as cifras exportadas para esses quatro destinos foram praticamente irrelevantes. As vendas externas para Indonésia somaram US$ 119,7 milhões de janeiro a novembro e responderam por 0,8% do total comercializado do produto no período.
Para o Vietnã, as exportações totalizaram US$ 5,7 milhões no período. Para o Cazaquistão somaram US$ 1,7 milhão e para Macau, US$ 2,5 milhões. Nos três casos, as fatias nas vendas externas do produto foram quase nulas, apontam as estatísticas do Mdic.
A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) estima que a adoção de medidas de salvaguarda pela China sobre a importação de carne bovina pode provocar perda de até US$ 3 bilhões em receita para o Brasil em 2026.
"A Abrafrigo manifesta profunda preocupação com o anúncio da aplicação de salvaguardas à importação de carne bovina pela China, medida que representa um risco material e imediato ao desempenho das exportações brasileiras e ao equilíbrio da cadeia produtiva nacional", afirmou a entidade, em nota.
Já a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) afirmam, em nota conjunta, que a adoção de medidas de salvaguarda pela China à importação de carne bovina "altera as condições de acesso ao mercado" e "impõe necessidade de reorganização dos fluxos de produção e de exportação".
As entidades destacaram que a cota destinada ao Brasil será de 1,106 milhão de toneladas em 2026, com tarifa de 12% para os volumes dentro deste porcentual e sobretaxa de 55% para os volumes excedentes, resultando em tarifa de 67% fora da cota.
Compensação
Para o presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, o Brasil pode tentar, mas achar outro país que seja um grande importador de carne bovina será difícil. "Tem limitações, será difícil compensar rapidamente", diz o economista. Ele observa que, além da ordem de grandeza os volumes exportados para a China, vender carne para o exterior envolve questões fitossanitárias, que requerem mais exigências na abertura e expansão dos mercados.
A decisão da China de sobretaxar a carne brasileira somada à diretriz recente do México de tributar produtos manufaturados produzidos pelo Brasil desenha, na avaliação do economista, um cenário perigoso para o comércio internacional, fazendo com que o mundo se consolide de forma desequilibrada.
"O ano de 2026 começa sob o signo do tarifaço, a gente achava que estava terminando, mas está começando", diz Castro. Na sua opinião, o tarifaço começa a se consolidar no mundo como um todo, com cada país se achando no direito de adotar uma tarifa para compensar a eventual taxação de outro país. Até agora, eram só os Estados Unidos que tinham adotado sobretaxas contra o Brasil, observa. Mas México e China engrossaram a lista, acrescenta.
Essa reação, segundo o presidente da AEB, revela a falta que faz a atuação de um órgão regulador, como a Organização Mundial do Comércio (OMC). Hoje, diz ele, cada país adota o princípio que quiser. "Isso é ruim, pois quando não há regulação no mercado, cada um faz o que quer e o (país) mais forte acaba vencendo."
Após a decisão da China, o governo brasileiro irá avaliar os próximos passos em relação à salvaguarda sobre a carne bovina, segundo o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua. As medidas podem incluir novas conversas bilaterais com a China para eventuais compensações, e se necessário, o Brasil poderá ainda recorrer aos fóruns internacionais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), segundo o secretário. Uma das alternativas já em estudo pelo governo é a possibilidade de exclusão da cota para carga que está em alto-mar, a caminho do mercado chinês anteriormente ao início da medida.
